Como o pânico nas bolsas afeta sua aposentadoria

Matéria publicada no Portal EXAME em 11/08/2011

Por: Julia Witgen

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Os fundos brasileiros de previdência privada podem aplicar até 49% do patrimônio em ações; para especialistas, não é hora de sacar os recursos mesmo se houver perdas

Os mais jovens e os mais velhos devem ter sangue frio e paciência - e até ir às compras

São Paulo – Em meio a tanta turbulência nos mercados, especialistas já se cansaram de afirmar que, para o investidor com visão de longo prazo, a atual crise não deve ser fonte de grandes preocupações. Para quem investe em renda variável com vistas à aposentadoria, então, a tensão deveria ser mínima. Mas não é exatamente isso que acontece. No Brasil, fundos de previdência privada podem investir até 49% do patrimônio em bolsa. Ainda que todos investidores que escolhem esse tipo de aplicação tenham por princípio um perfil de longo prazo, o que se vê em momentos como esse é que as pessoas resgatam recursos dos fundos mais expostos à bolsa porque tomam um susto quando verificam no extrato que houve eventuais perdas no valor da quota de um mês para o outro.

EXAME.com ouviu especialistas para saber o que cada tipo de poupador deve fazer nesse momento de incertezas com a quantia investida em bolsa para a aposentadoria. De maneira geral, todos concordaram que, mesmo para os que estão perto de se aposentar, o melhor é não fazer nada e esperar pela recuperação. Confira algumas dicas do que pode ser feito até lá:

Quem está perto de se aposentar e tem investimentos em Bolsa

Esse investidor, que está às portas da aposentadoria, até pode estar mais preocupado que os mais jovens porque talvez não tenha tempo de recuperar tudo o que tinha há alguns meses até a data em que planeja parar de trabalhar. Mas segundo especialistas em previdência e planejamento financeiro, se ele fez tudo certinho até aqui, deve, assim como os mais jovens, esperar pacientemente a recuperação dos mercados.

A renda variável pode fazer parte da carteira até o fim da vida do investidor, desde que ele tenha apetite por risco e robustas aplicações em renda fixa. Porém, o ideal é que o percentual do patrimônio aplicado em ações diminua com o tempo até ficar bastante reduzido às vésperas da aposentadoria. A composição da carteira também deve ir mudando, dando, aos poucos, preferência para os papéis que pagam bons dividendos.

Quem seguiu essas regras pode, num momento de crise como esse, respirar tranquilo. Primeiro porque o percentual aplicado em Bolsa será mínimo em relação a seu patrimônio total. “Faltando um ou dois anos para se aposentar, se o sujeito tem 5% dos investimentos em renda variável e a bolsa despenca 50%, ele vai comprometer apenas 2,5% do patrimônio, o que é um percentual ínfimo. Mesmo que se aposente, poderá esperar por uma recuperação”, exemplifica Eduardo Castro, superintendente executivo da Santander Asset Management.

Esse é o mesmo conselho de André Massaro, especialista em finanças pessoais da consultoria MoneyFit. Para ele, um investidor próximo da aposentadoria não deveria ter mais do que 15% do patrimônio em renda variável, e deve aguardar a recuperação, ainda que se aposente antes que ela aconteça. “Basta se preparar para mexer nas aplicações em renda variável por último”, afirma.

Em segundo lugar, o investidor que já aplica em renda variável há algum tempo certamente já colheu bons lucros no longo prazo até aqui, independente da desvalorização mais recente. Se esse for o caso e ele estiver satisfeito com sua conquista, já pode até migrar os recursos da Bolsa para a renda fixa ou para ações mais defensivas, boas pagadoras de dividendos.

 “Se o sujeito está na Bolsa há 20 ou 10 anos já teve um ganho muito bom, principalmente entre 2003 e 2008. E ainda está no lucro. Essa crise atual apenas consumiu um pouco da ‘gordura’”, diz Wilson Müller, consultor do Vida Investe, programa de educação financeira da Fundação CESP. Veja uma amostra da rentabilidade que cinco ações entregaram em uma década.

O último fator que deve fazer o investidor pensar duas vezes antes de sacar esse tipo de aplicação é que a tributação cai à medida que o tempo passa. Como a alíquota de Imposto de Renda é alta e pode chegar a até 35% para quem fica menos de dois anos, a pessoa pode ser extremamente penalizada se não tiver paciência. É por esse motivo que os próprios gestores de fundos de previdência privada admitem que esse tipo de aplicação só vale a pena se o horizonte de investimentos alcançar ao menos oito anos.

Agora, se o investidor estiver realmente preocupado e resolver sair da Bolsa de qualquer jeito, mesmo realizando prejuízo, André Massaro nem pestaneja: “Tesouro Direto, não tem nem o que discutir”, afirma. Apesar do discurso geral para o investidor manter a calma, o consultor lembra que, se o estresse com o mercado for grande demais, o melhor mesmo é ficar de fora. “A pessoa tem que fazer o que é melhor para ela, mesmo que não seja a melhor decisão financeira”, alerta.

Quem ainda tem um bom tempo de acumulação pela frente

Para quem já está na Bolsa visando o longo prazo, o conselho do consultor André Massaro é categórico: “A melhor coisa que essa pessoa pode fazer é nada. Quem tem perspectiva de longo prazo, e principalmente quem tem ações que pagam bons dividendos, não deve se preocupar. Deve seguir o plano que traçou desde o início.”

Aqueles que tiverem recursos sobrando para investir em renda variável – ou mesmo quem decidir começar a investir para o longo prazo agora – pode ainda aproveitar a baixa para ir às compras, já que muitas ações ficaram baratas com tamanhas desvalorizações (saiba quais são esses papéis). “Mas é preciso ter uma estratégia. Não é simplesmente sair comprando porque está barato”, ressalva Augusto Sabóia, planejador financeiro e palestrante da Expomoney.

O que ele quer dizer é que o princípio de escolher ações baratas e com bons fundamentos continua a valer mesmo em tempos de crise. Para Salomão Santos, diretor de operações da iCash Investimentos, no momento atual pode-se dar preferência aos papéis mais defensivos, de concessionárias de serviços básicos, ou ainda aquelas mais voltadas para o mercado interno.

 “Quem tiver bastante tempo para esperar, algo como cinco ou dez anos, pode até comprar ações de blue chips mais atreladas ao mercado externo, como Vale e Petrobras. Passada a turbulência, essas empresas voltarão a ser atrativas”, diz Santos.

Os investidores que acharem que investir em ações ou fundos de ações para a aposentadoria é emoção demais podem optar pelos fundos de pensão das empresas onde trabalham ou fundos de previdência abertos. Essas aplicações possuem incentivos tributários e são capaxes de equilibrar investimentos em renda fixa e variável de forma a não sofrer tanto com as crises. Alguns fundos permitem, inclusive, escolher entre os perfis conservador, moderado e agressivo de acordo com a idade do cotista.

O importante é entrar aos poucos

É difícil precisar quando o mercado vai se recuperar, mas especialistas dão como certo que isso não vai acontecer em menos de um ano. Ao mesmo tempo, também não se sabe qual é o fundo do poço, mas o investidor não deve ficar tentando acertar o que nem os profissionais conseguem fazer. Se agora é um bom momento de comprar ações, o ideal é fazê-lo aos poucos, de modo a aproveitar o período de baixa ao máximo.

O planejador financeiro Augusto Sabóia dá a dica: é melhor comprar ações em datas diversas a preços diferentes. Na hora de realizar os ganhos, vender a que rendeu mais em relação ao preço de compra. Se a ação comprada há dez anos por 10 reais hoje vale 50 reais, ela já rendeu um bom lucro. Porém, se o investidor comprou mais lotes dessa ação há cinco anos por 50 reais o papel, então, para esse montante investido, é melhor esperar pela recuperação. “O investidor escolhe para realizar seus lucros em datas diferentes”, diz Sabóia.

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Empresas brasileiras desvalorizam R$ 330 bilhões em uma semana

Matéria publicada no Portal R7 em 09/08/211
Por: Marcel Gugoni
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Temor de nova crise fez investidor fugir. Número é maior do que desvalorização no ano
O susto com uma nova crise mundial deu uma pancada forte na Bolsa de Valores de São Paulo. Nos primeiros oito dias de agosto, as ações de todas as empresas negociadas na Bovespa perderam R$ 330 bilhões em valor de mercado. O número é maior do que a desvalorização desses mesmos papéis entre o começo de janeiro e o final de julho de 2011.
O número foi intensificado nesta segunda-feira (8), depois que a agência de classificação de risco Standard & Poor’s rebaixou a nota dos Estados Unidos. A decisão jogou para baixo toda a confiança em torno da recuperação da maior economia do mundo e derrubou os mercados mundiais na Ásia, na Europa e na América.
Só ontem, a Bolsa desvalorizou quase R$ 147 bilhões, nas contas da empresa de informação financeira Economatica.
Somados, todos os papéis negociados na Bovespa valiam R$ 2,009 trilhões quando a Bolsa fechou na sexta-feira (5). No fechamento de ontem, essas mesmas ações valiam R$ 1,862 trilhões. No fechamento do mercado em 31 de julho, as empresas valiam R$ 2,192 trilhões.
Pelos números da Economatica, a Bolsa vem desvalorizando desde o começo do ano. Há muita incerteza do mercado internacional em relação ao futuro dos Estados Unidos e da Europa, cujos países sofrem com o alto endividamento e ainda procuram uma forma de se ajudarem mutuamente para ninguém quebrar, o que mandaria a zona do euro para o buraco. A decisão da Standard & Poor’s só fez crescer a preocupação.
Do fechamento do mercado no dia 31 de dezembro de 2010 até o dia 1º de agosto, a Bovespa havia tido uma desvalorização de R$ 262,8 bilhões. No período, o valor das ações negociadas na Bolsa era de R$ 2,376 trilhões e passou para R$ 2,113 tri.
Ontem, os investidores correram tanto para tirar seus papéis da Bolsa que o mercado teve recorde de negociações. Houve 1.049.044 de negócios ao longo do pregão. Esse número reflete o total de operações de compra e venda de ações realizadas.
O recorde anterior era de 924.666, registrado na sexta-feira passada (5). O volume financeiro negociado na Bovespa foi de R$ 9,677 trilhões. Esse é o total de ações vendidas ou compradas, em valores.
Petrobras e Vale
A Petrobras e a Vale foram as empresas que mais sofreram até agora com a fuga dos investidores. A petrolífera perdeu, só nesta segunda-feira, R$ 21,8 bilhões; a mineradora, R$ 20,8 bi.
O valor é tão alto que supera o preço de todas as ações de empresas do setor químico (que somadas estão na casa dos R$ 40,3 bilhões) ou da área de construção (R$ 37,7 bi) negociadas na Bolsa. Estes números consideram o preço dos papéis nesta segunda.
Ainda de acordo com a Economatica, todos os setores se desvalorizaram desde o começo de agosto. Em percentuais, as maiores desvalorizações desde o dia primeiro são dos setores de petróleo e gás, de mineração e de seguradoras.
Miguel de Oliveira, vice-presidente da Anefac (Associação Nacional dos Executivos em Finanças), analisa que esse momento de susto das bolsas só é motivo de preocupação para os investidores profissionais e especuladores. Isto é, quem aplica pensando no longo prazo e na aposentadoria, deve manter a calma e deixar o dinheiro lá nesse momento de queda.
– Para o cara que está dentro da Bolsa, o importante é não sacar o dinheiro. Se ele sair [agora], está assumindo toda essa perda e não tem como recuperar. Neste momento, se ele não estiver precisando do dinheiro, sangue frio: permaneça como está, não saque o dinheiro. Passada essa turbulência, a tendência é que essas ações recuperem seus valores.
A mesma opinião é compartilhada pelo economista Andre Massaro, da escola de educação financeira Money Fit.
– É hora de não fazer nada. Em momentos de estresse como esse, quem não é profissional tem que ficar de fora. E quem está dentro tem que seguir a estratégia seguida. Se você comprou ação por longo prazo, para receber dividendo, por exemplo, siga a estratégia e não pense em nada.

Quem não tem ações deve se preocupar com a crise?

Entrevista feita pelo programa “Jornal de Serviços”, da Rádio Jovem Pan, em 09/08/2011Link para a matéria original aqui.

Especialista explica que brasileiros endividados precisam ter cuidado com atual cenário econômico

Mesmo quem nunca investiu em ações está preocupado com os índices negativos que os mercados estão apresentando. O brasileiro se pergunta até que ponto essa crise financeira pode afetá-lo.

Em entrevista à Jovem Pan, o especialista em Desenvolvimento Pessoal e Financeiro da Money Fit, André Massaro, explica que, num primeiro momento, aqueles que não têm ações e os pequenos investidores não precisam se preocupar, mas, “num segundo momento, talvez”.

Ele analisa que a economia brasileira está um pouco diferente do que era anos atrás no que se refere ao pequeno investidor ou a quem não tem nenhuma aplicação em bolsa.

“O crédito nunca esteve tão fácil, e as pessoas estão se endividando demais. Além disso, estamos quase com pleno emprego. Uma piora do cenário econômico externo talvez nos afete, a economia desacelere e comece a gerar algum desemprego – o que é particularmente perigoso quando as pessoas estão consumindo muito e se endividando demais como vem ocorrendo”. Ouça a entrevista completa.

Redução da nota dos EUA gera crise de confiança mundial

Matéria publicada no Portal R7 em 08/08/2011
Por: Marcel Gugoni
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Recuperação da economia americana é colocada em xeque e pode afetar empregos no Brasil
Os Estados Unidos estão menos confiáveis. Essa é a conclusão a ser tirada a partir do rebaixamento da nota de risco dos títulos americanos anunciada pela agência Standard & Poor’s. Essa foi a primeira vez na história que o país mais rico do mundo, e também maior consumidor e porto seguro para investidores, sofreu um golpe do tipo. Essa notícia pode afetar toda a economia global e respingar no Brasil de uma forma bastante perigosa: elevando o desemprego.
A explicação de como a nota americana mexe com o Brasil é longa, ou seja, não é a nota dos EUA que vai fazer as empresas daqui saírem demitindo. Entram nessa conta diversos fatores, que vão do endividamento da população brasileira até a forma como as multinacionais vão lidar com as más notícias nos diversos mercados.
Especialistas ouvidos pelo R7 dizem que ainda é cedo para tirar qualquer conclusão de como os EUA – e economia, mercado de trabalho e consumo – vão reagir a essa notícia. Sendo assim, o mercado ainda especula demais.
A economista Lia Valls, professora da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e coordenadora do centro de comércio exterior do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), diz que, por enquanto, só há uma crise de confiança. Para ela, o que foi colocado em xeque foi a recuperação da economia dos EUA.
– Uma crise de confiança só dificulta a já combalida recuperação da economia dos Estados Unidos. As Bolsas caindo, as incertezas levam a um cenário de cautela, de queda da demanda mundial e de retração dos investimentos.
Em um primeiro momento, o Brasil ainda pode olhar com bons olhos para seus indicadores internos de salários valorizados, desemprego em queda e consumo em alta. Mas essa “comemoração” deve ser feita com cuidado.
A própria presidente Dilma Rousseff disse, nesta segunda-feira (8), que o Brasil não está imune a uma nova crise, apesar da “situação mais confortável” do que no inicio das turbulências globais, no final de 2008.
– Temos clareza que não somos imunes, não vivemos numa ilha. Mas teremos força para fazer frente a essa conjuntura. Estamos muito mais fortes para enfrentar a crise do que no início de 2009. Temos que continuar consumindo porque não estamos passando por nenhuma ameaça. Quero pedir a todos os segmentos do país muita calma, tranquilidade e nenhum excesso.
Com “calma, tranquilidade e nenhum excesso” a presidente quer dizer que o brasileiro deve evitar se endividar daqui pra frente e começar a guardar um dinheirinho para eventuais problemas. É o que explica o economista André Massaro, especialista em finanças da MoneyFit.
– Ainda é cedo para tentar concluir alguma coisa sobre isso. Em termos práticos, esse rebaixamento da nota não quer dizer nada. O que importa é o caráter simbólico da medida. É uma coisa que nunca aconteceu e que pode indicar fragilidade. Aqui no Brasil, quem tem dívidas e está consumindo tem que tomar uma postura mais defensiva.
Efeito dominó
O governo americano reclamou da mudança da nota. Em primeiro lugar, porque o Tesouro americano diz que a Standard and Poor’s cometeu um erro de R$ 3,1 trilhões (US$ 2 trilhões) em suas projeções para baixar a nota. Em segundo lugar, porque essa foi uma única avaliação negativa entre as três grandes agências de risco do mundo – Fitch e Moody’s não mudaram nada sua confiança sobre os EUA.
Para os economistas ouvidos pelo R7, o que se espera num primeiro momento é que os EUA subam a taxa de juros deles para começar a atrair os investidores estrangeiros – e mostrar que o país ainda é confiável. Com a crise de 2008, o governo abaixou sua taxa de juros para praticamente zero, a fim de “baratear o dinheiro” e incentivar o consumo, que move a economia americana.
A medida foi efetiva, mas não resolveu a questão do desemprego por lá – hoje a taxa está em 9,1%, uma das maiores já vistas. Sem emprego, o trabalhador não tem renda e não vai consumir, mesmo que os juros estejam baixos.
A eventual decisão de aumentar os juros deverá ser seguida por outros países estrangeiros, que também têm taxas baixas. É o caso de nações europeias, como o Reino Unido, e do Japão – que também baratearam o crédito aos consumidores após a crise de 2008.
Com juros em alta no mundo e queda da confiança mundial, é muito possível que haja uma queda generalizada no consumo – com efeitos para os grandes exportadores como a China, que manda os mais variados produtos manufaturados para os EUA e a Europa, e o Brasil, que tem suas vendas baseadas em alimentos e matérias-primas agrícolas.
A grana cara força o consumidor a pensar duas vezes antes de comprar o carro novo, trocar a geladeira de casa ou reformar o “puxadinho”. A confiança, por sua vez, é importante porque determina, em grande parte, a vontade do consumidor de comprar e a oportunidade das empresas de produzir.
Se o comprador não compra, o vendedor não vende, e a fábrica não fabrica novos itens para repor os que foram consumidos. É o movimento natural do mercado, que parece com um efeito-dominó.
– Hoje, o Brasil tem uma situação incomum de quase pleno emprego [a taxa está nos menores níveis da história, em 6,2%]. Com o enfraquecimento dos EUA, isso pode afetar as empresas brasileiras e, em algum momento, gerar desemprego.
Poupar e poupar
O mercado brasileiro vai acabar tendo que tomar medidas para incentivar o consumo interno. A doutora da FGV afirma que, se o consumo for afetado no país, as empresas terão que baixar sua produção. Isso, por sua vez, força a companhia a diminuir horas-extras dos empregados ou até fechar algumas vagas.
– Uma piora na economia dos EUA repercute no mundo todo e, logo, na economia brasileira. Pode haver menor crescimento e, logo, menor renda.
E a renda menor afeta primeiro quem tem muitas contas a pagar. Masaro diz que os juros tendem a continuar aumentando aqui no Brasil também (hoje, a Selic está em 12,5%), e a expectativa é de que passem desse patamar.
– As pessoas devem adotar postura defensiva porque [a situação da economia mundial] pode mudar para pior. O brasileiro já se endividou muito e agora precisam urgentemente controlar as contas e fazer uma reserva, uma poupança. A situação que mais preocupa não é da economia brasileira, é do nível individual. As pessoas precisam entender que a situação não está legal e adotar uma postura mais cuidadosa.

Com turbulência econômica, brasileiro deve optar por renda fixa e poupança

Matéria publicada no Portal R7 em 08/08/2011
Por: Marcel Gugoni e Raphael Hakime
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Quem tem dinheiro na Bolsa deve manter aplicação intacta. Aplicar agora, só em renda fixa
As Bolsas de Valores do mundo caíram após a decisão de uma agência de classificação de risco rebaixar a análise sobre a economia americana. Em poucas palavras, a agência Standard & Poor’s disse que os Estados Unidos não são mais tão confiáveis assim. Pode até parecer um bom momento de entrar na Bovespa para aproveitar as “pechinchas” (ações com preços baixos), mas o investidor que tem todo o carinho pela própria grana não deve se enganar: a hora é de evitar a Bolsa.
Se sobrou um dinheirinho no seu bolso neste mês e você não sabe onde aplicar, nesse momento de turbulência das economias mundiais o ideal é colocar a grana na caderneta de poupança ou escolher um fundo de renda fixa, de acordo com economistas ouvidos pelo R7.
A principal dica dos especialistas para quem não tem experiência é esquecer aplicações de risco, como a Bolsa ou os investimentos que usam o dólar como parâmetro.
Investir em renda fixa ou na caderneta de poupança significa, ao menos, nunca perder dinheiro, explica o vice-presidente da Anefac (Associação Nacional dos Executivos em Finanças), Miguel de Oliveira.
– Se não quiser correr risco e tem um dinheiro novo, a grande maioria dos mortais aplica em renda fixa ou até em uma caderneta de poupança porque não perde dinheiro. Isso porque, se você aplica R$ 1.000 hoje, depois você terá R$ 1.050, R$ 1.070… enfim, nunca terá menos [do que aplicou]. Diferentemente da Bolsa, que você aplica R$ 1.000 agora, e daqui a uma semana está valendo R$ 500.
O economista André Massaro, da MoneyFit, consultoria especializada em educação financeira, explica que “ainda é cedo para tentar concluir alguma coisa” sobre o comportamento das bolsas mundiais e do mercado aqui no Brasil, mas sugere que o brasileiro trace uma estratégia para seus investimentos. Assim como Oliveira, ele diz que o brasileiro inexperiente deve fugir da renda variável.
– Os títulos públicos [do governo, como o Tesouro Direto,] estão com juros bem altos, o que é muito vantajoso. Então nem é hora de ir pra Bolsa.
O vice-presidente da Anefac explica que existem dois tipos de renda fixa: títulos do governo, também chamados de fundos DI, e o CDB dos bancos, ambos atrelados a uma taxa de juros.
– As letras do Tesouro Direto são títulos do governo e uma boa alternativa, já que está atrelado aos juros. São títulos pré-fixados, que você já sabe [na hora da aplicação] o quanto vai ganhar, ou os pós-fixados, que acompanha a Selic. Se ela sobe, seu rendimento sobe, se ele desce, você perde dinheiro.
As letras do Tesouro são “notas” vendidas pelo governo para os investidores. É como se você emprestasse dinheiro para o governo financiar os próprios gastos, seja com o pagamento dos funcionários, seja com a equalização de dívidas que tem com fornecedores e empresas brasileiras ou com outros governos.
O investimento é seguro porque promete um rendimento bom para quem empresta e não há quase nenhuma chance de você não retirar o dinheiro no prazo estipulado. Em uma conta simples, se você aplicou R$ 1.000 agora para resgatar daqui a dois anos e o governo vai dar 10% de juros ao ano sobre esse dinheiro, no final do período você poderá pegar R$ 1.210. E só há calote se o governo quebrar – o que é uma chance quase nula atualmente.
Os CDBs funcionam do mesmo jeito, mas em vez de emprestar ao governo, o investidor empresta ao banco. E só há calote se a instituição quebrar.
Maior rendimento
Em julho, o R7 noticiou que os fundos de investimento em renda fixa tiveram os melhores retornos dos últimos 17 anos – desde a criação do Plano Real, em 1994. A alta foi de 2.481,81%. O estudo do Instituto Assaf mostrou que a Bolsa ficou na segunda colocação, com valorização de 1.674%.
O economista da MoneyFit adverte que o Brasil vive uma “situação incomum, de muito consumo e pleno emprego”. Por isso, a palavra para o brasileiro agora é prudência em qualquer tipo de investimento.
– No entanto, o brasileiro está se endividando muito. [Por isso,] precisa urgentemente controlar as contas e fazer uma reserva, uma poupança.
Se você não está preocupado com qual investimento fazer, mas como lidar com o dinheiro empenhado na Bolsa de Valores, o momento exige esquecer a turbulência mundial.
Para Massaro, “é hora de não fazer nada”, porque, em momentos de estresse como esse, “quem não é profissional tem que ficar de fora e quem está dentro tem que seguir a estratégia definida”.
Isso significa que se você comprou ações para, por exemplo, viver só com os dividendos, não é nem hora de pensar em vender. Se o foco foi aposentadoria, mantenha as ações e pense só na velhice tranqüila, e não na crise de agora, porque no longo prazo os mercados se recuperam – e os rendimentos voltam.
Oliveira, da Anefac, adota o mesmo discurso e sugere que o investidor da Bolsa, ainda que tenha pequena quantia aplicada, mantenha o dinheiro intacto.
– Para o cara que está dentro da Bolsa, o importante é não sacar o dinheiro porque a Bolsa já apresenta uma queda de mais de 20%. Então, se ele sair [agora], ele está assumindo toda essa perda e não tem como recuperar. Neste momento, se ele não estiver precisando do dinheiro, sangue frio: permaneça como está, não saque o dinheiro. Passada essa turbulência, a tendência é que essas ações recuperem seus valores.

O que fazer se a empresa em que você investe decidir fechar o capital?

Matéria publicada no Portal Infomoney em 03/08/2011
Por: Diego Lazzaris Borges
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SÃO PAULO – Qualquer companhia de capital aberto listada na Bolsa de Valores pode decidir fechar o capital por meio da chamada OPA (Oferta Pública de Aquisição). O caso mais recente aconteceu com o grupo UOL, que no dia 27 de julho anunciou que a Folhapar, acionista controladora do grupo, pretende comprar as ações em poder dos minoritários por meio de uma oferta pública.
De acordo com especialistas, quando a empresa decide fechar o capital, o ideal é que o acionista participe da oferta de encerramento e venda as suas ações para o grupo controlador.
“Não vale a pena para o pequeno investidor ser sócio de uma empresa de capital fechado”, afirma o especialista da MoneyFit, André Massaro. “Depois que a empresa fecha o capital, o investidor não tem mais para quem vender aqueles papéis. Só para o controlador, mas, neste caso, precisará aceitar as condições que ele estabelecer”, completa.
O especialista ressalta que, no caso da empresa fechar seu capital, o pequeno investidor que decidir permanecer com ações perde as garantias de governança corporativa que possuía quando os papéis eram negociados na Bolsa.
“A Empresa de capital aberto tem uma porção de regras de governança para proteger os acionistas minoritários, para impedir que pessoas sejam enganadas”, diz Massaro. “Empresas de capital fechado não têm nada disso”, continua.
Preço das ações
O diretor da Valore Investimentos Personalizados, Sérgio Quintella, ressalta que o valor das ações na oferta de aquisição é definido por uma consultoria isenta e costuma ser maior do que o preço atual dos papéis. “A empresa que faz a avaliação precisa ser o mais transparente possível”, afirma Quintella.
Em junho deste ano, a Valefert, subsidiária da Vale que atua no segmento de fertilizantes, também anunciou uma oferta pública de aquisição.
De acordo com o comunicado da companhia, o preço por ação na OPA será de R$ 25,00, que significa um prêmio de 41% em relação ao preço médio das ações preferenciais (FFTL4) negociadas nos últimos 20 pregões da BM&FBovespa, contados até a divulgação da proposta, em 22 de junho.
No caso do UOL, o preço máximo a ser ofertado é de R$ 17 por ação. Os acionistas minoritários serão convocados a deliberar sobre a contratação de empresa especializada para elaborar o laudo de avaliação das ações.

As ações mais baratas do Ibovespa

Matéria publicada no Portal EXAME em 03/08/2011
Por: João Sandrini
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Veja quais empresas possuem um valor de mercado inferior a 7 vezes o lucro líquido e quais são negociadas por um preço inferior ao valor patrimonial

Navio da Vale, ações da empresa possuem múltiplos atrativos

São Paulo – A queda da Bovespa nas últimas semanas tem assustado muitos investidores. Mas, segundo analistas e consultores financeiros, quem tem dinheiro, pode deixá-lo aplicado durante alguns anos, não se importa com eventuais quedas de curto prazo e só planeja colher os lucros proporcionais ao risco assumido no longo prazo não só deve continuar na bolsa como pode aproveitar para comprar mais ações a preços atrativos. Mas quais seriam os papéis mais baratos da bolsa neste momento? A verdade é que existem milhares de métodos para calcular o preço justo de uma ação. Abaixo, EXAME.com apresenta a lista de papéis que seriam considerados atraentes pelo método desenvolvido por Benjamin Graham, considerado o maior guru de Warren Buffett e também o pai da profissão de analista de investimentos.

Morto há mais de 35 anos, Graham costumava defender uma fórmula bastante simples – mas comprovadamente bem-sucedida – de negociar ações que lhe permitiu fazer fortuna na bolsa. O analista apostava que comprar uma cesta de ações de empresas negociadas por um valor inferior a 7 vezes o lucro líquido registrado nos últimos 12 meses era uma excelente forma de ganhar dinheiro no longo prazo. Com a Bovespa sendo negociada a um múltiplo de preço/lucro atualmente próximo a 9, a lógica é que qualquer ação negociada abaixo de 7 teria um valor que pode ser considerado atrativo.
EXAME.com consultou a base de dados da consultoria Economática e encontrou, somente dentro do universo de 61 ações do Ibovespa, 11 empresas que estão sendo negociadas por um valor equivalente a menos do que sete vezes o lucro anual:
Nome Preço/lucro dos últimos 12 meses
Santander Brasil – 6,9
Sabesp                 – 6,8
Petrobras – 6,6
Braskem – 6,3
Vale – 6,1
Bradespar – 6,1
Banco do Brasil – 6
Klabin – 5,9
TAM – 5,7
Brasil Telecom – 4,4
Eletropaulo – 4,3
Outra forma de comprar ações baratas era, segundo Graham, escolher os papéis que estivessem cotados a cerca de dois terços do valor patrimonial e depois colocá-los à venda quando alcançassem um valor semelhante ao do patrimônio. Como o valor patrimonial indica qual seria o preço de uma empresa caso todos seus bens fossem vendidos pelo valor contábil, o racional por trás desse método é que os investidores estariam diante de uma chance de comprar ações de uma empresa com um desconto em relação ao que poderia ser considerado justo. Segundo a Economática, 13 empresas do Ibovespa atendem a esse quesito:
Nome Preço/valor patrimonial
Gerdau Metalúrgica – 0,9
Copel – 0,9
BM&FBovespa – 0,9
Klabin – 0,9
Telemar – 0,8
Marfrig – 0,8
Gafisa – 0,8
Santander Brasil – 0,7
Brasil Telecom – 0,6
JBS – 0,6
Usiminas – 0,6
Fibria – 0,5
Eletrobras – 0,4
Segundos especialistas em finanças ouvidos por EXAME, considerar múltiplos como o preço/lucro e o preço/valor patrimonial continuam até hoje a ser duas das formas mais usadas para medir se o valor de uma ação é alto, baixo ou justo. O fato de uma ação estar barata não significa que ela vai subir mais que as outras e nem mesmo que ela vai subir. A decisão de compra ou venda deve ser tomada com uma análise bem mais complexa, que envolve dezenas de outros indicadores.
Segundo Andre Massaro, sócio da consultoria MoneyFit, o trabalho do analista de investimentos atualmente consiste em avaliar as condições da economia brasileira e mundial, as perspectivas de crescimento do setor em que uma empresa está inserida nos próximos anos e também os fundamentos da empresa em si (como o endividamento, a capacidade de geração de caixa, o tempo de maturação dos investimentos, o custo de capital, os contratos que estão sendo fechados, o impacto de eventuais mudanças de regras definidas pelo governo e muitos outros). “Um analista profissional conhece a fundo uma empresa, se relaciona com os executivos da companhia e se mantém muito bem informado sobre o que está acontecendo lá dentro”, afirma.
O professor Ricardo Almeida, do Insper, concorda que a avaliação de múltiplos em que uma ação está sendo negociada é muito importante, mas usa as ações da Vale para exemplificar como o trabalho do analista é mais complexo. “A Vale está sendo negociada por um preço equivalente a 6 vezes o lucro neste ano, o que pode ser considerado uma oportunidade. Mas cabe ao investidor refletir se a ação pode subir mesmo com uma maior interferência do governo sobre a empresa, mesmo se a mineradora levar a cabo projetos siderúrgicos menos rentáveis e mesmo se os problemas da economia global levarem a uma desaceleração da China ou a uma queda dos preços do minério de ferro”, afirma.
Um olhar técnico sobre os indicadores também pode ser imprescindível para o investidor obter a rentabilidade desejada. Andre Massaro afirma que o fato de uma ação estar sendo negociada por menos que seu valor patrimonial pode ser bom ou ruim. “Pode ser tanto uma ação barata quanto uma empresa prestes a quebrar”, afirma. Por esse motivo, na lista acima, EXAME.com considerou apenas as ações do Ibovespa, o principal índice da bolsa paulista e que costuma reunir empresas com boa liquidez e valor reconhecido no mercado.
Ricardo Almeida, do Insper, faz outra ressalva importante que vale para o múltiplo preço/valor patrimonial. O indicador serve para avaliar empresas do setor industrial, mas não tem muita relevância na análise de negócios pré-operacionais ou de empresas de serviços. As ações da Cielo e da Redecard, por exemplo, estão entre as maiores altas do Ibovespa neste ano apesar de também terem o segundo e o terceiro maiores múltiplos de preço/valor patrimonial (18 e 13,4, respectivamente). “Essas empresas não precisam investir pesadamente em máquinas, imóveis ou equipamentos e, por isso, têm um valor patrimonial baixo. O preço delas reflete o capital humano, que não tem valor contábil”, afirma.
Outro exemplo de preço/valor patrimonial que não quer dizer muito coisa é o da Petrobras, que está em 1. Após a oferta pública de ações em que captou quase 120 bilhões de reais no ano passado, a empresa inchou seu valor patrimonial. Boa parte do dinheiro captado foi usado na compra de direitos de exploração de 5 bilhões de barris de petróleo no pré-sal, numa operação que na época ficou conhecida como “cessão onerosa”. O problema é que ninguém sabe se realmente esse petróleo será retirado do fundo do mar e gerará ganhos futuros para o acionista. “Para fazer uma análise correta, eu acho que seria necessário subtrair isso do valor patrimonial”, afirma.
O conselho que o professor dá ao investidor pessoa física é procurar o analista de sua corretora e perguntar se não há fatores importantes que possam ter deixado o preço de uma ação artificialmente interessante nas listas acima.
Gilberto Braga, professor do Ibmec, faz uma última ressalva. Por mais que os múltiplos de várias empresas brasileiras pareçam atrativos neste momento, se a bolsa continuar a ser prejudicada pelo alto endividamento dos Estados Unidos e da Europa, o investidor precisará ter bastante sangue frio para suportar eventuais desvalorizações ainda maiores no preço das ações. “O próprio ministro Guido Mantega já falou que o problema europeu e americano deve levar três anos para ser resolvido. Então não é uma boa ideia comprar ações agora se o investidor tiver um horizonte de lucro de curto prazo e não puder deixar o dinheiro aplicado por ao menos três anos.”